Observação e Análise dos Ecossistemas nos Novos Templos Urbanos: o Ginásio

Há os que fecham os olhos e se entregam ao ritmo da respiração, e os que olham em volta como que à procura de confirmação de que têm o braço esticado no ângulo correcto e a perna dobrada na direcção pedida.

Há as senhoras reformadas que investem no equipamento da moda e não se separam dos berloques. As jovens que aplicam maquilhagem antes de irem treinar, indiferentes à perspectiva de terem tinta a escorrer pela cara ao fim de uma hora. E os senhores corajosos que frequentam as aulas tradicionalmente vistas como exclusivas do público feminino – aquelas onde o trabalho é feito de resistência e flexibilidade de toda e qualquer articulação, em vez das aulas centradas em demonstrações de força e estamina hercúleas. “Glúteos” é das palavras mais ouvidas em qualquer um dos cantos.

No covil das senhoras (nunca entrei no dos senhores) temos novas divisões. Independentemente de idades e formas físicas, as mulheres do balneário dividem-se em dois grupos: as que andam nuas e as que se tapam. Admitindo que é complicado não mostrar a pele enquanto trocamos de roupa há, no entanto, elementos que parecem estar sempre entre vestuários, dificultando a tarefa de perceber se acabaram de chegar ou se se preparam para sair. E são elas quem prova que a diferença entre desinibição e excesso de intimidade é bastante ténue.

Entre os espécimes tímidos e os mais à-vontade, há um terceiro grupo que, embora também tenha estas duas variantes, merece uma categoria própria: o grupo sénior.

Com muito mais tempo para frequentar as catedrais do exercício físico e a motivação adicional do convívio, o grupo sénior é omnipresente. Com mais ou menos energia e flexibilidade, o espectro vai desde a senhora que leva todo o ouro de uma vida para a aula de Pilates, até à senhora com aspecto de elfo grisalho que punha muita juventude a um canto, com a sua flexibilidade e equilíbrio.

De peles flácidas e descaídas, com melhor ou menor postura, e em contraste com os jovens esbeltos e musculados que se passeiam pelos estúdios, são o maior espelho do local para onde todos nós caminhamos. Com ou sem tonificação.

Há os que fecham os olhos e se entregam ao ritmo da respiração, e os que olham em volta como que à procura de confirmação de que têm o braço esticado no ângulo correcto e a perna dobrada na direcção pedida. Há as senhoras reformadas que investem no equipamento da moda e não se separam … Continue reading Observação e Análise dos Ecossistemas nos Novos Templos Urbanos: o Ginásio

quem fotografa a fotógrafa?

Quando era pequena, a minha mãe ralhava várias vezes comigo por estar sempre de máquina em riste, a fotografar tudo e todos, sem nunca aparecer em foto nenhuma.

E, salvo excepções pontuais, continuei a seguir pelos anos como a cronista entusiasta de ajuntamentos e passeios vários, ignorando estoicamente os protestos dos meus modelos involuntários.

Até que a vida me trouxe a Miriam Lago, aliás já bastante assediada pelas minhas lentes, e que me fez perceber que a grande questão não é termos quem nos fotografe – é encontrar alguém cuja lente nos apanhe como somos.

Quando era pequena, a minha mãe ralhava várias vezes comigo por estar sempre de máquina em riste, a fotografar tudo e todos, sem nunca aparecer em foto nenhuma. E, salvo excepções pontuais, continuei a seguir pelos anos como a cronista entusiasta de ajuntamentos e passeios vários, ignorando estoicamente os protestos dos meus modelos involuntários. Até … Continue reading quem fotografa a fotógrafa?

quando deixamos o nosso Eu Mais Novo orgulhoso

Reler-nos com anos de distância é sempre um risco. Especialmente quando nos confrontamos com um ou outro Manifesto cheio de certezas sobre as Verdades da Vida. Há muitas estradas e vielas que vamos escolhendo ao longo do percurso – e emprego o plural porque suspeito não ser a única – que deixariam o nosso Eu Mais Novo desiludido ou incrédulo.

E porque a vida tem uma certa tendência a dar-nos valentes bitch slaps por cada vez que bradamos “havia de ser comigo!”, é sempre bom encontrarmos um dos nossos manifestos mais fervorosos e potencialmente ingénuos perdido algures no sótão, e podermos asseverar que, já à beira dos 40, ainda o estamos a cumprir.

Manifesto velhinho aqui: sonhos vs. contas de electricidade

Reler-nos com anos de distância é sempre um risco. Especialmente quando nos confrontamos com um ou outro Manifesto cheio de certezas sobre as Verdades da Vida. Há muitas estradas e vielas que vamos escolhendo ao longo do percurso - e emprego o plural porque suspeito não ser a única - que deixariam o nosso Eu … Continue reading quando deixamos o nosso Eu Mais Novo orgulhoso

Pose & Variações

Acaba hoje mas ainda vão a tempo de espreitar a exposição Pose e Variações, no Museu Calouste Gulbenkian, com cerca de 30 estátuas de escultura francesa, das colecções de Calouste Gulbenkian e Carl Jacobsen.

Bem tentei, mas (oh, contra-luz cruel!) não consegui apanhar a fantástica Baigneuse em terracota, de Aimé-Jules Dalou.

Ficam aqui algumas – todas com uma expressividade incrível -, captadas por uma lente que já viu melhores dias.

Denys Pierre Puech, Sereia Alada Arrebatando um Adolescente
Rodin – Cariátide caída sob o peso da sua pedra

 

O Prado e o Regato, Raoul Larche

Acaba hoje mas ainda vão a tempo de espreitar a exposição Pose e Variações, no Museu Calouste Gulbenkian, com cerca de 30 estátuas de escultura francesa, das colecções de Calouste Gulbenkian e Carl Jacobsen. Bem tentei, mas (oh, contra-luz cruel!) não consegui apanhar a fantástica Baigneuse em terracota, de Aimé-Jules Dalou. Ficam aqui algumas - … Continue reading Pose & Variações

Premier PC-440

2018 foi o ano em que amigos fantásticos me despacharam uma série de máquinas fotográficas de bolso, com as quais tenho cegado temporariamente as pessoas da minha vida.

Depois da máquina sem marca (aka Máquina Chunga), segue-se a primeira fornada de uma Premier PC-440 que andava perdida num sótão algures e foi agora usada pela primeira vez:

2018 foi o ano em que amigos fantásticos me despacharam uma série de máquinas fotográficas de bolso, com as quais tenho cegado temporariamente as pessoas da minha vida. Depois da máquina sem marca (aka Máquina Chunga), segue-se a primeira fornada de uma Premier PC-440 que andava perdida num sótão algures e foi agora usada pela … Continue reading Premier PC-440

Criancinhas optimistas

Planificação de leitura para 2019 que, provavelmente, não vou seguir.

  • 1 livro por mês, 5 dos quais do David Mitchell, ficando a bibliografia do senhor devorada
  • Os restantes em português porque ando demasiado perra na minha língua materna.

Na realidade, vou continuar a comprar livros que irei ler sem ordem nenhuma. Mas no Mitchell tenho fé.

Planificação de leitura para 2019 que, provavelmente, não vou seguir. 1 livro por mês, 5 dos quais do David Mitchell, ficando a bibliografia do senhor devorada Os restantes em português porque ando demasiado perra na minha língua materna. Na realidade, vou continuar a comprar livros que irei ler sem ordem nenhuma. Mas no Mitchell tenho … Continue reading Criancinhas optimistas

interpretações

– Eles acreditavam que uma pessoa, quando morria, aparecia outra vez.
– Sim, as vidas múltiplas.

os mini-primos, em conversa natalícia sobre o antigo Egipto

- Eles acreditavam que uma pessoa, quando morria, aparecia outra vez. - Sim, as vidas múltiplas. os mini-primos, em conversa natalícia sobre o antigo Egipto

Ἑλλάς – Delphi

O plano era simples: dois dias em Atenas e outros dois divididos por duas ilhas, com o objectivo de não mexer uma palha e dar uns mergulhos no mar Egeu – mas quis Éolo que fossemos soprados noutras direcções.

Chegados ao porto de Piraeus, descobrimos que os ferrys estavam parados graças à tempestade que se aproximava e que foi espirituosamente apelidada de medicane: o ciclone Zorba (sim, leram bem).

A alternativa envolvia viagens de táxi com valores de 3 dígitos e, após uma troca de ideias com um marinheiro russo igualmente apeado, decidimos ir os três para a outra ponta da cidade, apanhar um expresso para os respectivos destinos. O marinheiro russo para junto da família, e nós para Delfos, de onde seria mais seguro conseguirmos voltar. Partilhámos a viagem de metro e uma longa travessia da maior concentração de oficinas e stands que alguma vez vi numa zona residencial, e fomos conversando sobre o panorama na Rússia, onde até se pode criticar o governo em público, mas é provável que depois tenham a conta congelada por uma razão ou outra. “Há países que têm mafias, mas a Rússia é a única máfia que tem um país.”

Seguem-se três horas de viagem por paisagens absurdamente magníficas. Cada vez mais acho que as montanhas se ouvem melhor no silêncio do tempo frio, e este percurso foi alternando planícies soalheiras com cumes escondidos entre nuvens densas. Pelo caminho apareciam construções que nunca deixam perceber se foram abandonadas a meio ou destruídas algures no tempo – e o que apenas consigo chamar de enromes plantações de painéis solares.

Delfos é mais turística do que Atenas no sentido em que tudo o que existe é direccionado a visitantes. Nas ruas só se encontram hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs, desde porta-chaves a joalharias, e todos com nomes como Hotel Hermes ou Cantinho de Atenas ou Taberna do Baco. É levar com clichés helénicos de todas as frentes.

Mas, ao contrário de Atenas, não nos sentimos esmagados pelo Turismo. Talvez seja o ar calmo da montanha, ou talvez o mau tempo tenha afastado as hordas – a verdade é que me senti bem menos turista naquela aldeia com ar de postal.

Ironicamente, Delfos já atraía turistas há quase 3000 anos atrás. Considerado pelos gregos antigos como sendo o umbigo do mundo, recebia visitantes que chegavam a fazer milhares de quilómetros para visitar o Oráculo no Templo de Apolo: uma sacerdotisa (a famosa pítia) que, sentada num tripé a inspirar fumos suspeitos, saídos de uma fenda no chão, revelava profecias ambíguas e indecifráveis a quem a consultava.

A antiga imponência do santuário está, hoje em dia, na vista do magnífico monte Parnasso (ou nas estátuas, frisos e artefactos agora a residir no museu ao lado). Mas não há como andar pelas ruínas e subir o santuário até ao estádio e não sentir que estamos em solo sagrado – com ou sem sibilas.

O plano era simples: dois dias em Atenas e outros dois divididos por duas ilhas, com o objectivo de não mexer uma palha e dar uns mergulhos no mar Egeu - mas quis Éolo que fossemos soprados noutras direcções. Chegados ao porto de Piraeus, descobrimos que os ferrys estavam parados graças à tempestade que se … Continue reading Ἑλλάς – Delphi

Ἑλλάς – Atenas

Visitar cidades não significa que as vejamos realmente.

À excepção dos nove dias que passei em Paris e da greve geral dos transportes que me obrigou a fazer a cidade toda a pé (há várias vidas atrás), vou-me embora sempre com a sensação de só ter visto o salão dos convidados. Por muito que espreite pelos corredores, à procura das passagens secretas onde os locais se reúnem para fugirem às visitas, eles topam-nos sempre. E de todas as cidades que já visitei, nenhuma me fez sentir tanto de que me estava a esconder qualquer coisa como Atenas.

Quase completamente, erm, decorada a graffiti, a cidade é um emaranhado de estilos arquitectónicos (e não estou a incluir o legado histórico). O hotel ficava ao lado do que depois percebemos ser um cinema porno, o que explicou bastante o charme marginal da rua onde estávamos. Um pouco mais acima, a praça Omonia e a rua Athinas lembram uma Almirante Reis há 20 anos atrás – com a vantagem do enorme mercado, onde se encontram desde especiarias e ervas a granel, a talhantes que acenam aos transeuntes com pernas de frango na mão.

Entrar na Acrópole tem algo de A Rosa Púrpura do Cairo. Já a vimos tantas vezes e durante tanto tempo sem nunca lá ter ido, que tudo à volta é surreal e extremamente natural ao mesmo tempo. Isto, até começarem a chegar as hordas de peregrinatores infernalium, que transformam o local imponente na capital do photobomb (porque, como qualquer turista que se preze, as hordas são sempre os outros, nunca nós).

Há demasiado ruído e demasiados selfie sticks para se assimilar o espaço com a atenção que merecia. Mas depois vemos velhotes que sobem aquilo tudo com uma prótese onde antes tinham uma perna, e não temos como não sentir o quão solene é aquela visita.

Para a calma que gostariam de sentir na Acrópole, dirijam-se à Ágora Antiga e entrem na Estoa de Átalo, com vista para o templo de Hefesto. Podem ver bustos imaginados de deuses e heróis, ou de comuns mortais endinheirados, de quem não sabemos o nome mas que ficaram com as linhas do rosto eternamente demarcadas.

E, por favor, dêem um saltinho à Igreja dos Santos Apóstolos onde, para além das imagens bizantinas, podem ver o senhor sentado à entrada, que protege calmamente o templo dos peregrinatores infernalium.

Como peso-pesado europeu que é a nível histórico e cultural, torna-se complicado ver realmente a Atenas contemporânea para além de tudo o que é direccionado ao turismo e dos lindos pedregulhos que foram ficando. Mas talvez a minha falha seja tentar separá-los.

Muito antes de visitar o país, dei por mim no meio de uma gigantesca comunidade estudantil grega no meu semestre de Erasmus em Inglaterra. Durante os jantares e brunches na cantina da residência, o discurso girava sempre à volta da ideia de que tudo o que existe no mundo – todo o conhecimento, vocabulário, qualquer coisa de que se lembrem – teve origem na Grécia. Acreditem que o pai da noiva no filme My Big Fat Greek Wedding não é uma caricatura assim tão exagerada. Mas é um comportamento a que estava bastante habituada, não fosse ele um espelho dos portugueses e dos Descobrimentos. Outrora fomos enormes, agora somos pequeninos – não há nada mais natural do que pregar as velhas glórias da nossa nação aos senhores estrangeiros.

Visitar cidades não significa que as vejamos realmente. À excepção dos nove dias que passei em Paris e da greve geral dos transportes que me obrigou a fazer a cidade toda a pé (há várias vidas atrás), vou-me embora sempre com a sensação de só ter visto o salão dos convidados. Por muito que espreite … Continue reading Ἑλλάς – Atenas

ampulheta

Parece lenta
por ser imensa
a torrente que passa
pela ampulheta.
Devia entupir
ou emitir sinal de alarme
ao ver passar
versos repetidos
ou rimas pirosas.

Ouve a areia, diz ela,
não queres a tua âmbola cheia
de poemas menores.

Parece lenta por ser imensa a torrente que passa pela ampulheta. Devia entupir ou emitir sinal de alarme ao ver passar versos repetidos ou rimas pirosas. Ouve a areia, diz ela, não queres a tua âmbola cheia de poemas menores.

10 albums / 1 post

A corrente pede 10 álbums que ainda apareçam nas nossas playlists – uma capa por dia, sem explicações, e com a nomeação da praxe.
Vou saltar os artifícios e apresentar os 10 da minha vida (que deviam ser 20 para caberem mais), um pouco por ordem de importância:

A corrente pede 10 álbums que ainda apareçam nas nossas playlists - uma capa por dia, sem explicações, e com a nomeação da praxe. Vou saltar os artifícios e apresentar os 10 da minha vida (que deviam ser 20 para caberem mais), um pouco por ordem de importância:

De Santos e Pastores

Foram anos de poemas declamados no colégio de freiras e de outros tantos a retalhar versos como se fossem só uma aglomeração de a-b-b-a e sinédoques – que identificamos com o mesmo entusiasmo de quem decora a lengalenga do teorema de Pitágoras. Até que um dia, depois todo este ruído, conheci o mestre Caeiro, e todas as vigas e alicerces que me sustêm se manifestaram. Nunca texto nenhum me tinha acordado daquela forma.

Foi nessa altura que entendi toda a reverência (muitas vezes bafienta) com que se tratava a Poesia. E percebi que a Poesia a sério não era uma colecção de formalismos alinhavados com uma linguagem pomposa, como o sistema de ensino nos quis fazer acreditar.

Assim que ouvi o rotineiro “vamos analisar o poema”, a minha vontade foi sair porta fora para ficar a sós com aquelas palavras que estava a sentir tanto – talvez um pouco como quem se refugia no templo do seu credo, para se religar ao seu sentido do divino. Ainda protestei mas tive mesmo de tolerar a autópsia e inspecção de órgãos daquele corpo que estava tão vivo.

O grande segredo é que, depois de se sentir um poema desta forma, nunca mais nos apanham em balelas de análises mecânicas. Sim, senhor, tiramos os apontamentos e marcamos os quiasmos que quiserem – mas o que eles nos dizem, isso passamos a trazer connosco.

Foram anos de poemas declamados no colégio de freiras e de outros tantos a retalhar versos como se fossem só uma aglomeração de a-b-b-a e sinédoques - que identificamos com o mesmo entusiasmo de quem decora a lengalenga do teorema de Pitágoras. Até que um dia, depois todo este ruído, conheci o mestre Caeiro, e … Continue reading De Santos e Pastores

O Slogan Maldito

Deparei-me hoje com esta palermice de cartaz num tweet do irmaolucia e fui a correr confirmar.

Era verdade, caros leitores: o CDS/PP de Almada (porquê especificamente o de Almada é uma boa questão, e uma à qual não sei responder) tinha um novíssimo cartaz para a sua campanha contra a eutanásia.:

Digo “tinha” porque já o retiraram da sua página do Facebook. E como isto da indignação viral e dos feeds das redes sociais costuma ser coisa com prazo de validade, escolho manifestar-me por aqui. (É certo que os blogs estão longe da glória de outrora, mas é sempre tudo mais fácil de encontrar.)

Vejamos então porque é que este cartaz é imbecil:

É feio de dói
Sim, a política e a estética raramente andam de mãos dadas – mas querem mesmo um cartaz que confunde a vossa campanha com os avisos nos maços de tabaco? Talvez sim.

Estar vivo é o contrário de estar morto
A eutanásia mata. Sim, meus senhores, é essa a ideia.

Luta pela vida
Não quero entrar pela questão da eutanásia em si, porque isso é um debate para outras praças ou outros posts.
Se concordo com ela? Sim. Se acho que é uma questão complexa e que tem de ser bem legislada? Sim.
Mas não vou vender agora os meus argumentos a favor. O que me causa um asco indescritível é o uso da frase “luta pela tua vida”.
Porque quem deseja a eutanásia está claramente a ser demasiado leviano com esta questão, não é verdade?

Luta pela tua vida, cidadã ou cidadão com uma doença incurável, porque esse sofrimento todo é só uma questão de auto-encorajamento.
Luta pela tua vida, pessoa em estado terminal. Se a queres terminar com alguma dignidade é porque não te estás a esforçar o suficiente.

E é esta ideia – mais do que redundâncias ou falta de gosto – que torna este cartaz verdadeiramente hediondo.

Deparei-me hoje com esta palermice de cartaz num tweet do irmaolucia e fui a correr confirmar. Era verdade, caros leitores: o CDS/PP de Almada (porquê especificamente o de Almada é uma boa questão, e uma à qual não sei responder) tinha um novíssimo cartaz para a sua campanha contra a eutanásia.: Digo "tinha" porque já … Continue reading O Slogan Maldito

A Página em Branco

O terror.

Começar por onde, em que ponto? E se me engano…? E se aquilo com que preencher o espaço em branco for mau? Pior: e se for medíocre? Todo este potencial manchado. A infâmia…!

Pelo menos é o que entendo dos infinitos relatos sobre o medo da página em branco. Não o sei descrever melhor porque nunca o senti.

Mas ponham de lado as foices e os archotes, que não me venho vangloriar. A minha dor não é maior do que a vossa mas é bem menos divulgada:

Mais do que me inspirar medo de a macular com erros e imperfeições, a página em branco tem, para mim, o tentador encanto do Potencial.

Em pequena, preenchia os espaços livres no interior de livros com gatafunhos que ensaiavam futuras obras-primas. Em adulta, perco-me em páginas pautadas e lisas, aglomeradas com lombada ou argolas, maleáveis ou revestidas em armadura de cartão. A verdade é que são mais os cadernos comprados especificamente para a história X ou Y, do que as histórias realmente terminadas. Olha para mim!, gritam eles, É na minha superfície que vais concretizar as imagens que tens dentro de ti, onde vais contar todas as histórias. Sou eu o Escolhido.

E a minha tragédia é dar ouvidos ao canto destas sereias de papel. Atiro-me ao mar com o espírito temerário que só o Entusiasmo traz e entrego-me aos inícios com todo o fogo da criação – apenas para os abandorar a meio. Porque os inícios são fáceis. Deixam-nos no arrebatamento ilusório da Obra Começada e, quando esmorecemos porque as coisas começam a dar trabalho, a solução é fácil: começamos outra coisa e o ciclo repete-se.

É uma droga, caros leitores, de antídoto simples mas não menos penoso.

Terror ou fascínio, a solução é a mesma para ambos: lançar caneta ao papel e não parar. Porque o real medo que nos é comum, parece-me, é o de nos confrontarmos com um resultado mal-amanhado ou mediano. De termos nas mãos um Mau ou um Suficiente.

Esteja a página vazia ou preenchida a meio, o verdadeiro truque é não ficar só a olhar para ela, como se fosse uma qualquer entidade sagrada.

Não se pode aperfeiçoar o que não existe. Que venham os clichés, as incoerências, os disparates. Esses combatem-se depois, de caneta vermelha em riste (como esta rima que fiz agora). E a Criação é um músculo como qualquer outro.

O terror. Começar por onde, em que ponto? E se me engano...? E se aquilo com que preencher o espaço em branco for mau? Pior: e se for medíocre? Todo este potencial manchado. A infâmia...! Pelo menos é o que entendo dos infinitos relatos sobre o medo da página em branco. Não o sei descrever … Continue reading A Página em Branco

das revelações

“O teu avô era dos lobisomens. Desde pequena que me contava histórias sobre eles nas encruzilhadas.”

Prémio História de Família do Ano

"O teu avô era dos lobisomens. Desde pequena que me contava histórias sobre eles nas encruzilhadas." Prémio História de Família do Ano

fio fantasma

Sinto o mundo passar à frente e o passo
dos meus pés presos
com o peso de tempo soldado.
Sempre me vi entre as palavras mas talvez as tenha tomado por certas.
Devia estudar-lhes os vestidos
E deitar fora os panos de padrões pirosos.
Por muitos modelos que esboce
O meu medo
É já são saber costurar

Sinto o mundo passar à frente e o passo dos meus pés presos com o peso de tempo soldado. Sempre me vi entre as palavras mas talvez as tenha tomado por certas. Devia estudar-lhes os vestidos E deitar fora os panos de padrões pirosos. Por muitos modelos que esboce O meu medo É já são … Continue reading fio fantasma

Neologismos

Novo vocábulo descoberto ao ouvir duas adolescentes a comentar o cartaz do Primavera Sound e imediatamente partilhado com a confraria.

Novo vocábulo descoberto ao ouvir duas adolescentes a comentar o cartaz do Primavera Sound e imediatamente partilhado com a confraria.

Na última vez que estive contigo

Na última vez que estive contigo fomos as duas andar de baloiço no parque.

Os Cinzentos mandaram-nos olhares reprovadores e comentámos o bom que era termo-nos uma à outra como companhia para andar de baloiço no meio da cidade e que os deviam fazer para adultos também. Porque, num mundo que nos torna monocromáticos com tanta facilidade, tu sempre foste uma das minhas maiores companheiras de batalha em manter viva a nossa palete de cores (e sempre tiveste tanta cor, minha irmã).

Enquanto baloiçava para trás e para a frente naquele fim de tarde fantástico, parei para o guardar. Lembrei-me a mim própria que a felicidade é tão simples como andar pelo ar aos 35 anos e que nunca por nunca me posso esquecer de continuar a escolher momentos assim. Ao pé de ti sempre foi fácil. O Cinzento tentava deixar-te de rastos, mas tu atiravas-lhe sempre com um balde de tinta para cima, armada com o teu enorme sorriso e uma pureza como já não se faz.

“Na última vez que estive contigo” nunca é dito de forma literal. Claro que não é mesmo a última vez, é só uma expressão.
Ainda somos tão novos, temos sempre amanhã.

Nem sempre.

Mas vou continuar a levar a cor sempre comigo – agora com um um bocadinho das tuas.

Na última vez que estive contigo fomos as duas andar de baloiço no parque. Os Cinzentos mandaram-nos olhares reprovadores e comentámos o bom que era termo-nos uma à outra como companhia para andar de baloiço no meio da cidade e que os deviam fazer para adultos também. Porque, num mundo que nos torna monocromáticos com … Continue reading Na última vez que estive contigo

Hoje o mar sou eu

É a sina de qualquer aprendiz: antes de se conseguir criar obra nossa, passamos eternidades a copiar (muito) os que já o fazem. Para perceber como se chega lá, para exercitar os músculos até conseguirmos andar sem as rodinhas de apoio.

Os desenhos por aqui começaram depois dos 30 e, só muito recentemente, a surgir de forma regular. Qualquer ideia que tenha obriga-me a pesquisar imagens de referência e qualquer elogio à execução (por muito bem que saiba) é o mesmo que dizer “Gostei muito da música!” a um concorrente do Chuva de Estrelas. Mais do que aprendiz de artista, sinto-me como uma cover band do Pinterest.

Mas ontem foi diferente.

Quis o acaso que o fabuloso Capitão Romance começasse a tocar enquanto rabiscava ondas e um barquinho – e percebi que este mar me pedia para ser preenchido com os versos ondulados, em vez de mais linhas ou pontinhos.
E lá estava ela: a euforia da criação. Mesmo quando não é cópia, a criação nunca é realmente 100% nossa, porque o que somos senão todas as ideias, imagens e sons que nos despertam fragmentos de nós mesmos ao longo do percurso?

Mas sabe bem fazer nascer algo que não existia antes de o materializarmos – ainda mais quando nasce de sementes que nos dizem tanto e que, digo eu, geram as raízes mais fortes.

É a sina de qualquer aprendiz: antes de se conseguir criar obra nossa, passamos eternidades a copiar (muito) os que já o fazem. Para perceber como se chega lá, para exercitar os músculos até conseguirmos andar sem as rodinhas de apoio. Os desenhos por aqui começaram depois dos 30 e, só muito recentemente, a surgir … Continue reading Hoje o mar sou eu

Consultadoria

De cabeleireira farfalhuda cortada à tigela, tem um quê de Ringo Starr se tivesse tirado Gestão.

O ângulo do perfil parece completamente à mercê do nariz e do seu esforço consciente em manter-se elevado – o que, é sabido, mostra ao mundo como somos conhecedores e capazes.

Mas quando se afasta do portátil anda e gesticula como quem tem a dança presa nos membros, a querer rasgar o impecável fato. O entusiasmo é metade genuino, metade comprado.

Atrás dele, colada pelos pés como uma sombra, anda lenta a pergunta: como serias tu se tivesses trocado o espartilho da gravata por uma mão cheia de anéis?

De cabeleireira farfalhuda cortada à tigela, tem um quê de Ringo Starr se tivesse tirado Gestão. O ângulo do perfil parece completamente à mercê do nariz e do seu esforço consciente em manter-se elevado - o que, é sabido, mostra ao mundo como somos conhecedores e capazes. Mas quando se afasta do portátil anda e … Continue reading Consultadoria

Translations

O meu amigo Ricardo escreve umas coisas – bastantes e boas. Há poucos dias publicou, no seu cantinho virtual, um poema em que pede para não ser traduzido. O que me pareceu a oportunidade perfeita para exercitar os músculos de tradutora e pseudo-poeta.
Sem mais demoras, aqui vai:

My friend Rick (see what I did there?) writes a little – and by “little”, I mean “lot”. A few days ago he published a poem on his online abode, asking not to be translated. Always up for a good challenge, I thought it would be the perfect opportunity to exercise my translation and poetry muscles.
Without further ado, here goes:

Tradução

não me traduzam.
nem em português nem em qualquer outra
língua

agarro-me à escrita
sem nexo, os calcanhares batem no léxico
e da pancada nasce
o poema

traduzir-me
tornar-me-á puta virtual
ao serviço de qualquer
olho

na ponta de outra língua
não existe verdade
só traços da sombra de
alguém
menos que
eu

Translation

don’t translate me.
in portuguese or any other
language

I hold on to sensless
writing, the heels hit the lexic
and from the pounding comes
the poem

translating me
will turn me into a virtual slut
at the service of any
eye

at the tip of another tongue
there is no truth
only shadow lines of
someone
less than
me

O meu amigo Ricardo escreve umas coisas - bastantes e boas. Há poucos dias publicou, no seu cantinho virtual, um poema em que pede para não ser traduzido. O que me pareceu a oportunidade perfeita para exercitar os músculos de tradutora e pseudo-poeta. Sem mais demoras, aqui vai: My friend Rick (see what I did there?) … Continue reading Translations

‘Animais de Sangue Frio’

Festa de lançamento de Animais de Sangue Frio, o segundo livro de Elisabete Marques, ed. Língua Morta.

Como um maquinismo louco ou uma lâmpada quase
fundida, sou intervalado. Tremo até deslocar o ar.
Minha inquietação, uma espécie de granido sem moldura.

Vi-me ansioso por ser completo e absoluto,
eu. Esta questão de lugar,
o lugar sempre outro e atravessado e esquivo.

Dos Frenéticos

Estou neste lugar para agarrar os mares pela goela,
embora não saiba quase nada sobre os balanços líquidos.

Dos Novos

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Festa de lançamento de Animais de Sangue Frio, o segundo livro de Elisabete Marques, ed. Língua Morta. Como um maquinismo louco ou uma lâmpada quase fundida, sou intervalado. Tremo até deslocar o ar. Minha inquietação, uma espécie de granido sem moldura. Vi-me ansioso por ser completo e absoluto, eu. Esta questão de lugar, o lugar sempre … Continue reading ‘Animais de Sangue Frio’