Mais, por favor

Quando era pequena, o meu pai tentou (exaustivamente) convencer-me a ter aulas de aikido. “Não quero! Quero ser bailarina!”, protestava eu. “O aikido é quase uma dança,” argumentava o meu pai “vais ver que vais gostar.” Mas a Marta de 8 anos não queria saber. A Marta de 8 anos queria era lantejoulas, dançar em pontas e ser a Pequena Sereia. (A Marta do presenta revira carinhosamente os olhos perante esta reminiscência.)

Bem mais crescida, apaixonei-me por uma personagem de televisão porque era agente do FBI e não usava saltos, nem quilos de maquilhagem e muito menos decotes. Mas dava sopapos como gente grande. Anos mais tarde, apareceu a grande Lagertha – representada pela Katheryn Winnick, cinturão negro de taekwondo e karate e que chegou a ter três escolas de artes marciais.

se os heróis pousassem como as heorinas ©Kevin Bolk

Foi nessa altura que me apercebi o quão libertador é ver mulheres à porrada sem haver grande foco no facto de serem mulheres. Mas era só às vezes e só nas séries de televisão. Entre os infindáveis filmes de super-heróis que andam a aparecer como Lemmings, a escassez de heroínas que não sejam side-kicks é flagrante.

Eis que, de repente, sai a Sequência de Cenas Que Não Merece Ser Chamada de Filme, também conhecido como Batman vs Superman. E aparece a Gal Gadot, muito elegante, muito discreta – até ao combate final. Com tudo o que é mau naquele desastre cinematográfico, a entrada da Wonder Woman soube a alívio.

O novo filme da Wonder Woman também.

Não é de todo perfeito e já não tenho grande paciência para o enredo de deuses/extra-terrestres/mutantes (riscar o que não interessa) em guerra porque uns dizem que a humanidade é só escumalha e os outros até nos acham fofinhos. Mas o deleite, a catarse e o refrescante que é ver uma heroína com o papel principal a arrear mauzões em grande estilo – e a Princesa Prometida promovida a general – compensa todas as outras pequenas falhas.

E, apesar de não ter seguido o conselho dele na altura, cada vez mais me apercebo do importante que foi ter tido um pai que queria que a filha aprendesse a se defender sozinha.

Quando era pequena, o meu pai tentou (exaustivamente) convencer-me a ter aulas de aikido. "Não quero! Quero ser bailarina!", protestava eu. "O aikido é quase uma dança," argumentava o meu pai "vais ver que vais gostar." Mas a Marta de 8 anos não queria saber. A Marta de 8 anos queria era lantejoulas, dançar em … Continue reading Mais, por favor

Viver com Esclerose Múltipla

O próximo dia 31 de Maio marca o Dia Mundial da Esclerose Múltipla. Para assinalar a data, a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM) organizou uma exposição no jardim exterior do Centro Comercial Colombo que, para além de querer divulgar a doença e as várias formas de apoio, tenta, principalmente, mostrar-nos o que é viver com EM.

Desde os pesos para os calcanhares e andar com barbatanas, até à visão turva e um banalíssimo portátil onde nos é quase impossível escrever o nome. Pequenos gestos e rotinas nos quais nunca pensamos muito e que de repente ganham um peso enorme – e muitas vezes literal – na gestão do dia-a-dia.

Há quem fale sobre isso abertamente e os que foram despedidos assim que as empresas souberam do diagnóstico. Há quem perca amigos e quem continue a tentar viver em negação completa. E aqueles que, depois do choque, fazem o possível para se adaptar às limitações e não deixar de viver o mais que podem.

Para além da casa-modelo, a exposição tem também um painel com membros da SPEM que, com mais ou menos dificuldade, continuam a arregaçar as mangas. Entre as fotos, podemos ver saltos em pára-quedas e bailarinas profissionais.

Com cerca de 8 mil pessoas diagnosticadas em Portugal, os tratamentos e investigação para a EM não recebem tantos apoios como poderiam. A maioria dos pacientes é diagnosticada, em média, entre os 20 e os 40 anos – quando ainda estamos a investir no futuro, numa carreira ou numa família – mas há fortes probabilidades de a doença ter surgido bem mais cedo e os sintomas terem sido ignorados por não parecerem nada de mais.

A exposição estará no Colombo até ao dia 31 e merece ser visitada. Por quem conhece a EM demasiado de perto e para quem só ouviu o termo em episódios do House e não faça a mínima ideia do que se trata.

O próximo dia 31 de Maio marca o Dia Mundial da Esclerose Múltipla. Para assinalar a data, a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM) organizou uma exposição no jardim exterior do Centro Comercial Colombo que, para além de querer divulgar a doença e as várias formas de apoio, tenta, principalmente, mostrar-nos o que é viver … Continue reading Viver com Esclerose Múltipla

Amélia dos olhos doces

Há cerca de 3 anos atrás, decidi colaborar com a Associação Mais Proximidade Melhor Vida (MPMV) e voluntariei-me para visitas semanais a um(a) idoso/a a ser designado. Alistei a amiga Stella e, pouco tempo depois, fomos informadas de que iriamos visitar uma octagenária “bastante culta, que fala com a família por Skype, por Facebook e por mail.”

No dia 19 de Novembro de 2014 conhecemos a D. Amélia, a senhora leoa que rapidamente adoptámos como avó honorária.

Com histórias de vida rocambulescas e repletas de reis, magnatas e anjos insuspeitos, a D. Amélia anima as nossas tardes ali para os lados da Mouraria não só com dicas de costura e culinária como, principalmente, com entusiásticos debates sobre política e a evolução da sociedade.

Não é por acaso que são várias as vezes em que descobrimos que foi entrevistada – para partilhar memórias, receitas, ou até para dizer à SIC Notícias qual a sua opinão sobre os arrendamentos impossíveis em Lisboa. É que a nossa amiga de olhos doces e sorriso pronto conquista qualquer pessoa que a visite e troque com ela dois dedos de conversa.

A grande verdade é que fazem falta mais laços destes, de afecto e apoio, entre famílias e entre comunidades. Porque, no meio das rugas e cabelos grisalhos, é demasiado fácil generalizarmos e esquecermo-nos que aqueles rostos engelhados têm um mundo de histórias para contar de quando eram como nós.

E quem melhor do que eles para nos mostrarem como será o caminho até às nossas próprias rugas – porque, não tenhamos ilusões, elas vão chegar mais cedo ou mais tarde.

Para os interessados, a MPMV está a recrutar voluntários, com sessões de formação nos dias 3, 9 e 18 de Maio.

Há cerca de 3 anos atrás, decidi colaborar com a Associação Mais Proximidade Melhor Vida (MPMV) e voluntariei-me para visitas semanais a um(a) idoso/a a ser designado. Alistei a amiga Stella e, pouco tempo depois, fomos informadas de que iriamos visitar uma octagenária "bastante culta, que fala com a família por Skype, por Facebook e por … Continue reading Amélia dos olhos doces

74 x 34 x 60 mm

Dimensões conservadas.

Discretamente heterogéneo
apenas.

Linha sem alterações intrínsecas.

Septação fúndica
já conhecida
já alvo de intervenção.

Cavidade virtual.

Pequenas imagens
líquidas
infracentimétricas
simples.

Visibilidade anexial
direita mais satisfatória
do que a esquerda.

Douglas livre.

Dimensões conservadas. Discretamente heterogéneo apenas. Linha sem alterações intrínsecas. Septação fúndica já conhecida já alvo de intervenção. Cavidade virtual. Pequenas imagens líquidas infracentimétricas simples. Visibilidade anexial direita mais satisfatória do que a esquerda. Douglas livre.

O Pai

em·pa·ti·a
(grego empátheia, -as, paixão)

substantivo feminino

Forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa (ex.: a empatia entre os voluntários e a população local era evidente; assistimos à perfeita empatia entre piano e violino).

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

Esta semana, a Associação Mais Proximidade Melhor Vida, com a qual colaboro há mais de 2 anos, convidou-me para ir ao Teatro Aberto ver a peça O Pai, do francês Florian Zeller, com o grande João Perry no papel principal.

Dizer que se trata da história de um Pai idoso que sofre de demência, e em como isso afecta a relação com a sua filha, é reduzir bastante o que está em cena.

O texto é brilhante na forma como nos empurra para uma sequência de cenas que nos fazem duvidar do que é verdade ou delírio. Não somos meros espectadores do declínio de outra pessoa e sim igualmente vítimas. A cenografia exepcional e os interlúdios com música digna de um techno-thriller ajudam a criar a sensação de instabilidade constante: a divisão da casa parece ser a mesma da cena anterior mas agora está uma mesa onde há bocado havia uma cómoda, e por aí fora.

Recorrente durante toda a peça é a procura de um relógio de pulso, que a personagem de João Perry julga sempre perdido ou roubado, e que me fez pensar inevitavelmente no Capitão Gancho e no seu pânico contra o tic-tac do relógio. Aqui, por outro lado, o pai parece sentir alguma segurança e conforto em saber as horas exactas – em saber onde está no Tempo, visto que este se mistura e troca com tanta facilidade.

Para além da alienação do pai, a peça toca também na luta interior da filha – e, convenhamos, de todos os cuidadores de um familiar – entre querer tomar conta (seja por afecto ou sentido de dever) e sentir tudo aquilo como um fardo.

À saída da peça ouviam-se desabafos de quem não só viveu situações iguais, como tem uma saudável noção de que, qualquer dia, vamos ser nós naquele lugar. E a relevância d’O Pai é precisamente essa: porque nestas histórias nunca há respostas ou soluções fáceis. Porque vivemos numa sociedade que parece não saber muito bem como lidar com os idosos e parece achar mais fácil ignorá-los ou tratá-los como tolos – o que também é criticado na peça, numa cena deliciosa.

Entre as inúmeras razões pelas quais a Arte é fundamental para nos elevar enquanto seres humanos, a que tenho como mais importante é a capacidade de nos expôr a outras perspectivas. Realidades com as quais nunca teríamos contacto – ou que nem sequer nos dariamos ao trabalho de tentar descobrir ou entender – e que se tornam acessíveis através dos grandes meios artísticos, incluindo uma boa peça.

Está em cena até 12 de Março e só têm a ganhar em lá dar um saltinho.

em·pa·ti·a (grego empátheia, -as, paixão) substantivo feminino Forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa (ex.: a empatia entre os voluntários e a população local era evidente; assistimos à perfeita empatia entre piano e violino). in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa   Esta semana, a Associação … Continue reading O Pai

O mistério do número que se calhar não é meu

Aqui há uns anos comprei um cartão de telemóvel de uma rede que não era a minha habitual, e que já raramente uso.

Desde esse dia que comecei a receber periodicamente SMS a avisarem-me para pagar a factura da Cabovisão (de quem não sou cliente), para levar o carro que não tenho com uma matrícula que não reconheço à revisão da marca – e chamadas várias de desconhecidos a quererem falar com pessoas que eu não sou. O último perguntava-me se era a mulher do Dr Pedro. Não meu senhor, não há doutores cá em casa.

E eis que hoje recebo o seguinte de outro/a desconhecido/a:

img_20170206_151202.png

Não querendo que o meu silêncio desse em zanga de comadres por mal-entendidos, achei por bem responder e o resultado foi o que se vê:

Caro remetente:
Não faço ideia quem você seja.
Não faço ideia quem seja a pessoa que deseja tanto insultar – e pelos vistos, você também não.
Não tenho conhecimento de sofrer de sonambolismo ou personalidades múltiplas mas sei que não tenho por hábito assinar nada com o nome dos outros.

Desejo-lhe as melhores felicidades e, como simpatizo com a sua angústia, digo-lhe apenas que a palavra *encomodar não existe.

Boa sorte na sua demanda.

Aqui há uns anos comprei um cartão de telemóvel de uma rede que não era a minha habitual, e que já raramente uso. Desde esse dia que comecei a receber periodicamente SMS a avisarem-me para pagar a factura da Cabovisão (de quem não sou cliente), para levar o carro que não tenho com uma matrícula … Continue reading O mistério do número que se calhar não é meu

a série que me está a fazer deixar o Game of Thrones na prateleira

A fórmula não tem muito de original:

Equipa all-stars composta por personagens da literatura vitoriana? Check.

Sangue e sexo semi-gratuitos por todo o lado? Check.

Vampiros? Check.

A Eva Green a fazer de bruxa? Check, check e check.

Penny Dreadful traz-nos o Dr Frankenstein e a sua criatura (ironicamente, talvez a personagem mais bela da série), o hedonista Dorian Gray, e até o senhor Van Helsing.

Por enquanto, tudo se centra numa operação-salvamento-Mina-Harker, liderada pelo papá explorador Timothy Dalton, e em profecias egípcias obscuras, enquanto nos vai sendo apresentada a troupe gótica.

Por trás do barulho das luzes de todo o gore e deboches libertinos, temos um grupo de personagens com segredos obscuros e naturezas, no mínimo, complicadas.

O último episódio foi o primeiro em demasiado tempo como devoradora de séries que me deixou estupefacta. A milhas de distância de Red Weddings e chacinas do Hannibal, se há coisa que Penny Dreadful prova, é que os plot twists não vivem só de banhos de sangue, e sim de histórias bem escritas e cenas com crescendos muito bem construídos – uma qualquer ópera ajuda sempre ao dramatismo da cena… E mais não digo.

A fórmula não tem muito de original: Equipa all-stars composta por personagens da literatura vitoriana? Check. Sangue e sexo semi-gratuitos por todo o lado? Check. Vampiros? Check. A Eva Green a fazer de bruxa? Check, check e check. Penny Dreadful traz-nos o Dr Frankenstein e a sua criatura (ironicamente, talvez a personagem mais bela da série), o hedonista Dorian … Continue reading a série que me está a fazer deixar o Game of Thrones na prateleira

Obediência

Ver filmes sobre os quais só se sabe o título tem as suas vantagens.

A história começa com o início de um dia de trabalho num franchise de fast food. Conhecemos a gerente, o empregado calão, a loirinha mais interessada em mudar as capas do telemóvel do que em atender clientes, e tudo filmado em estilo documental, como um bom filme indie.

Até que recebem um telefonema que deixa toda a gente da história em alvoroço.  O espectador talvez nem tanto. Pelo menos até ao pedido que a pessoa do outro lado do telefone faz – melhor dizendo, à ordem que é dada.

Quem está de fora apercebe-se do que é que tudo se trata na realidade, e é aqui que reside o verdadeiro génio deste filme.

A reacção de quem vê começa na irritação e vai subindo por ali acima até – e sei que não falo só por mim – nos sentirmos profundamente perturbados com tudo aquilo.

Apercebemo-nos das manipulações e não percebemos porque é que mais ninguém (dos que estão lá dentro) as consegue ver. Porque é que a voz da autoridade não é questionada – principalmente quando é uma voz que nunca se mostra. Porque é que ninguém reivindica os seus direitos? Porque é que seguem directrizes que vão contra o que acham correcto ou humano ou decente?

Porque – e por muito que digamos “isto comigo não era assim!” – a reacção natural é a de obedecer a quem se apresenta como autoridade.

Não é um filme fácil, na medida em que, logo a meio, queremos berrar com as personagens e atirar coisas ao ecrã. Mas há muito, muito tempo que não via nada que provocasse em mim uma reacção tão visceral.

Saiu em 2012 mas está agora nas nossas salas de cinema.

©Authorial Minimalist Posters

Ver filmes sobre os quais só se sabe o título tem as suas vantagens. A história começa com o início de um dia de trabalho num franchise de fast food. Conhecemos a gerente, o empregado calão, a loirinha mais interessada em mudar as capas do telemóvel do que em atender clientes, e tudo filmado em … Continue reading Obediência

“I’ve been too honest with myself I should have lied like everybody else”

Always the late bloomer,  foi preciso chegar aos trintas-e para ouvir de forma obsessiva álbuns com 20 anos (1994 já foi há 20 anos…?), que gritam angústias existenciais, revolta contra políticos e psicopatas, e me fazem cantarolar na rua there ain’t no black in the union jack.

O belíssimo Journal, com o melhor dos dois mundos (o durante e o pós-Richey), continua no topo da minha lista, mas a letra mil-à-hora-de-refrão-destrava-línguas-erudito de Faster é de tal forma viciante que estou há meses a tentar largá-la.

É a bíblia na prateleira dos Álbuns Melhores do que Café.

Always the late bloomer,  foi preciso chegar aos trintas-e para ouvir de forma obsessiva álbuns com 20 anos (1994 já foi há 20 anos...?), que gritam angústias existenciais, revolta contra políticos e psicopatas, e me fazem cantarolar na rua there ain't no black in the union jack. O belíssimo Journal, com o melhor dos dois … Continue reading “I’ve been too honest with myself I should have lied like everybody else”

ver a doença invisível

Numa época em que toda a gente fotografa tudo para todo o mundo ver, sabe muito bem encontrar projectos um bocadinho mais relevantes do que a actividade gastronómica do alheio – como fugir um pouco aos nossos umbigos e tentar ver uma realidade que não conhecemos.

A esclerose múltipla é  uma doença autoimune  e degenerativa imensamente estigmatizada.

O nome evoca logo imagens dramáticas, mas a verdade é que, salvo estados de progressão mais avançados e dependendo das diversas tipologias , é uma doença perfeitamente invisível. E, tal como todas as doenças neurológicas ou da psique, se não se vê, as queixas de quem as sofre devem ser exagero.

O site Seeing MS propõe que a EM se mostre ao mundo através dos seus sintomas.

O projecto é simples: fotografar dor, fadiga, tonturas, dormência e outros sintomas que quem vive com EM tem de contornar.

O site oferece uma app para telemóvel, de forma a que qualquer pessoa possa fotografar o seu mundo com o filtro de cada um dos sintomas – o que não impede os mais criativos e aventureiros de os tentar exprimir por si mesmos.

MS2 - pain
Um exemplo de dor, por Garth Oriander

Numa época em que toda a gente fotografa tudo para todo o mundo ver, sabe muito bem encontrar projectos um bocadinho mais relevantes do que a actividade gastronómica do alheio - como fugir um pouco aos nossos umbigos e tentar ver uma realidade que não conhecemos. A esclerose múltipla é  uma doença autoimune  e degenerativa … Continue reading ver a doença invisível

destinos

– Uma vez leram-me a sina, há muitos anos atrás – conta-me ela à luz do pequeno candeeiro que já lhe fere a vista.

Abre a palma da mão em frente à cara:
– “Você devia ter casado nova. Agora já não casa.” Devia ter sido o João. Era tão apaixonado por mim… Eu fui ao casamento dele, a noiva atrasou-se mais de uma hora porque faltou a luz no cabeleireiro, quando se estava a arranjar. Mesmo depois de casado, ainda passava pela rua onde eu trabalhava, de propósito. Sim, só podia ter sido o João.
– E tu, também gostavas dele?
– Eu não.

- Uma vez leram-me a sina, há muitos anos atrás - conta-me ela à luz do pequeno candeeiro que já lhe fere a vista. Abre a palma da mão em frente à cara: - "Você devia ter casado nova. Agora já não casa." Devia ter sido o João. Era tão apaixonado por mim... Eu fui … Continue reading destinos

facturas

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Ilustração: Hélder Oliveira

A autora deste blog tem para si que a ideia do governo sortear carros e afins a quem pedir mais facturas é uma contra-medida dissimulada ao boicote que o povo fez de as pedir todas em nome dos ministros e presidente.

Kirikiri.

Ilustração: Hélder Oliveira A autora deste blog tem para si que a ideia do governo sortear carros e afins a quem pedir mais facturas é uma contra-medida dissimulada ao boicote que o povo fez de as pedir todas em nome dos ministros e presidente. Kirikiri.

raízes

Desde pequena que tinha a pancada de querer ter tudo registado – conversas, datas, rostos, artefactos… Pensava que bom, bom, era cada um de nós ter uma espécie de mecanismo que fosse registando tudo por escrito, qual estenógrafo interno, em forma de guião ou semelhante.
Como acontece com todas as nossas ideias ultra-originais, já fizeram o filme.

Sei que ainda não tinha chegado aos 20 e já queria escrever a minha autobiografia. Ou começar a. Uma espécie de work in progress de décadas em vez de uma reflexão posterior. (Sim, Marta, isso já se faz. Chamam-se diários.)
E essa vontade foi agora reavivada quando comecei a ler a autobiografia de um tio-que-na-realidade-é-primo-em-segundo-grau, em tom de legado para as filhas.
Vou-me perdendo em narrativas de uma família que é só metade minha e que mais parece saída de um qualquer romance de realismo mágico sul-americano.

Conhecer raízes que ignorávamos é uma sensação extraordinária. Porque, com os anos, vão-se perdendo ramos da família e, com eles, as histórias insólitas e os familiares burlescos.
Mas todos temos a tia ou o avô que conhece as histórias todas e se lembra dos nomes dos trisavós. Façam-lhes perguntas. Muitas. Tirem notas. As deles e as vossas.

A era digital é prodigiosa no que diz respeito a meios para registar tudo (vide fotos de todas as refeições do alheio em todas as redes sociais). Mas parece-me que esses mesmos registos se perdem (ou se esquecem) bem mais depressa do que os seus antepassados analógicos.

Tudo isto em defesa das histórias. Das nossas, que hoje estamos cá e amanhã não.
Digo eu, que tenho veia de Cronista. E que sei o quanto vale a micro-História enquanto legado.

Desde pequena que tinha a pancada de querer ter tudo registado - conversas, datas, rostos, artefactos... Pensava que bom, bom, era cada um de nós ter uma espécie de mecanismo que fosse registando tudo por escrito, qual estenógrafo interno, em forma de guião ou semelhante. Como acontece com todas as nossas ideias ultra-originais, já fizeram o … Continue reading raízes

dust

Não sou pessoa de reler livros.

Porque sou uma leitora lenta e há sempre mais livros que ainda não li na lista de espera.

Mas a obra-prima do tio Pullman é uma excepção e o Will continua a ser melhor que qualquer Darcy.

Abençoado Kobo que me deixa trazer uma trilogia inteira na mala.

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ilustração: artflower

Não sou pessoa de reler livros. Porque sou uma leitora lenta e há sempre mais livros que ainda não li na lista de espera. Mas a obra-prima do tio Pullman é uma excepção e o Will continua a ser melhor que qualquer Darcy. Abençoado Kobo que me deixa trazer uma trilogia inteira na mala. ilustração: … Continue reading dust

uma foto por semana: it’s the goblins!

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Desde ter tido a luz inadvertidamente cortada pela EDP, a uma intoxicação alimentar e uma avaria-por-enquanto-sem-resolução no MacMini…

…o desafio semanal de fotografia tem sido cumprido (tanto em formato digital como analógico) mas o resultado só será postado sabem os deuses quando.

(Mercúrio, pensava que eramos amigos…!)

ilustração: Gary Laib

Desde ter tido a luz inadvertidamente cortada pela EDP, a uma intoxicação alimentar e uma avaria-por-enquanto-sem-resolução no MacMini... ...o desafio semanal de fotografia tem sido cumprido (tanto em formato digital como analógico) mas o resultado só será postado sabem os deuses quando. (Mercúrio, pensava que eramos amigos...!) ilustração: Gary Laib

pretextos: uma foto por semana

Como moça dispersa e indisciplinada que sou, preciso de listas. Listas que crio sempre com método de bibliotecária mas executadas sem fio nem pavio – e que raramente acabo.

Mas há listas que são pretextos para criar.

A ideia não é nova e é aplicável a qualquer forma de expressão artística. Qual TPC, há os livros com listas para desenhar, para escrever. Há meses temáticoshá até quem desenhe todos os filmes que viu por ordem alfabética.

Escolho a fotografia por saudades e para exercitar olhos preguiçosos.

Os temas foram descaradamente roubados daqui, escolhidos mais ou menos a dedo e ordenados a gosto.

Plano de festas para o que resta do ano:

Semana 25/11: Inesperado
Semana 02/12: Camadas
Semana 09/12: Saturação
Semana 16/12: Estrangeiro
Semana 23/12: Infinito
Semana 30/12: Mudança

E era moda que podia pegar por cá.

Como moça dispersa e indisciplinada que sou, preciso de listas. Listas que crio sempre com método de bibliotecária mas executadas sem fio nem pavio - e que raramente acabo. Mas há listas que são pretextos para criar. A ideia não é nova e é aplicável a qualquer forma de expressão artística. Qual TPC, há os … Continue reading pretextos: uma foto por semana

einstein explica

Pedem-me para registar quanto tempo demoro em cada uma das minhas tarefas ao longo do dia.

Demora tudo muito menos tempo do que parece.

Pedem-me para registar quanto tempo demoro em cada uma das minhas tarefas ao longo do dia. Demora tudo muito menos tempo do que parece.

it’s History, stupid

Notícia de hoje no Público, citando o senhor cardeal Gianfranco Ravasi:

Jesus usou o tweet antes de todos, com as suas frases cheias de essência e que tinham menos de 45 caracteres.

Claro.

Porque, como toda a gente sabe, foi Jesus que escreveu os Evangelhos. E divertiu-se tanto que os escreveu 4 vezes.

Porque o que ele disse não foi escrito por outras pessoas 60 e tal anos depois da sua morte, depois da “palavra” ter passado de ouvido em ouvido ao estilo do telefone estragado.

Porque as máximas curtas não têm marcas nenhumas de oralidade, ao bom estilo dos ditados populares. Nada disso. Jesus era, no fundo, excelente a criar slogans.

Pior do que tentativas ignorantes de modernizar a imagem da igreja, é usarem analogias idiotas e oh-tão-século-XXI para vender ignorância a quem fala de/sobre Jesus sem nunca tem pegado na Bíblia ou fazer sequer ideia da verdadeira História dos textos.

Notícia de hoje no Público, citando o senhor cardeal Gianfranco Ravasi: Jesus usou o tweet antes de todos, com as suas frases cheias de essência e que tinham menos de 45 caracteres. Claro. Porque, como toda a gente sabe, foi Jesus que escreveu os Evangelhos. E divertiu-se tanto que os escreveu 4 vezes. Porque o … Continue reading it’s History, stupid

crenças

There are some books that refuse to be written. They stand their ground year after year and will not be persuaded. It isn’t because the book is not there and worth being written—it is only because the right form of the story does not present itself. There is only one right form for a story and if you fail to find that form the story will not tell itself.

Mark Twain

Por vezes, a mesma história bate a várias portas, à procura de quem a escreva como merece.

Quando temos sorte, ela acredita que somos nós e não se importa de esperar até estarmos prontos.

There are some books that refuse to be written. They stand their ground year after year and will not be persuaded. It isn't because the book is not there and worth being written—it is only because the right form of the story does not present itself. There is only one right form for a story … Continue reading crenças

austenismos

She hoped to be wise and reasonable in time; but alas! Alas! She must confess to herself that she was not wise yet.

Persuasion, Jane Austen

Alguém me disse, em tempos, que era o melhor livro da amiga Jane.

Talvez já não tenha idade para eles,
talvez, por ter sido o último, estivesse à espera de uma maturidade diferente
ou talvez seja por terem sempre a mesma fórmula, independentemente da crítica social espirituosa. Mais do que orgulhos e preconceitos, o rapaz encantador que anda de olho na heroína tem sempre esqueletos no armário.

Talvez estivesse à espera de outra história.

She hoped to be wise and reasonable in time; but alas! Alas! She must confess to herself that she was not wise yet. Persuasion, Jane Austen Alguém me disse, em tempos, que era o melhor livro da amiga Jane. Talvez já não tenha idade para eles, talvez, por ter sido o último, estivesse à espera … Continue reading austenismos

cabalismos

Comprei um livro de numerologia cabalista que ‘descodifica o contrato da alma’ de cada um.
Depois de inúmeras somas, é-me revelado que parte da solução para os meus problemas de dinheiro é pensar duas vezes se objecto de consumo X é realmente necessário.

Posto isto, devolvi o livro e recuperei 13€.

Comprei um livro de numerologia cabalista que 'descodifica o contrato da alma' de cada um. Depois de inúmeras somas, é-me revelado que parte da solução para os meus problemas de dinheiro é pensar duas vezes se objecto de consumo X é realmente necessário. Posto isto, devolvi o livro e recuperei 13€.

geração Magalhães

Acredito que, no meu tempo, os professores tinham mais do que vontade de pegar em dois ou três alunos e afastá-los da turma para conseguirem dar aulas.

Eu tenho vontade de pegar em dois ou três alunos de cada turma e dar-lhes aulas só a eles.

Acredito que, no meu tempo, os professores tinham mais do que vontade de pegar em dois ou três alunos e afastá-los da turma para conseguirem dar aulas. Eu tenho vontade de pegar em dois ou três alunos de cada turma e dar-lhes aulas só a eles.

um dia beijo-te

um dia beijo-te ao som
do vermelho tinto que trazemos
no sangue mesmo que não sintas
fervilhar no teu os meus lábios
dir-te-ão mais que as palavras
e juras que carrego nas
veias.

um dia beijo-te ao chegar a
coragem de dizer sem versos
as rimas que sinto na minha
pele ansiosa pela tua
de poros e pêlos e fendas
e poesia dos nossos dedos
calejados manchados de tinta.

um dia beijo-te
por não ter palavras.

um dia beijo-te ao som do vermelho tinto que trazemos no sangue mesmo que não sintas fervilhar no teu os meus lábios dir-te-ão mais que as palavras e juras que carrego nas veias. um dia beijo-te ao chegar a coragem de dizer sem versos as rimas que sinto na minha pele ansiosa pela tua de … Continue reading um dia beijo-te