em·pa·ti·a
(grego empátheia, -as, paixão)

substantivo feminino

Forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa (ex.: a empatia entre os voluntários e a população local era evidente; assistimos à perfeita empatia entre piano e violino).

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

Esta semana, a Associação Mais Proximidade Melhor Vida, com a qual colaboro há mais de 2 anos, convidou-me para ir ao Teatro Aberto ver a peça O Pai, do francês Florian Zeller, com o grande João Perry no papel principal.

Dizer que se trata da história de um Pai idoso que sofre de demência, e em como isso afecta a relação com a sua filha, é reduzir bastante o que está em cena.

O texto é brilhante na forma como nos empurra para uma sequência de cenas que nos fazem duvidar do que é verdade ou delírio. Não somos meros espectadores do declínio de outra pessoa e sim igualmente vítimas. A cenografia exepcional e os interlúdios com música digna de um techno-thriller ajudam a criar a sensação de instabilidade constante: a divisão da casa parece ser a mesma da cena anterior mas agora está uma mesa onde há bocado havia uma cómoda, e por aí fora.

Recorrente durante toda a peça é a procura de um relógio de pulso, que a personagem de João Perry julga sempre perdido ou roubado, e que me fez pensar inevitavelmente no Capitão Gancho e no seu pânico contra o tic-tac do relógio. Aqui, por outro lado, o pai parece sentir alguma segurança e conforto em saber as horas exactas – em saber onde está no Tempo, visto que este se mistura e troca com tanta facilidade.

Para além da alienação do pai, a peça toca também na luta interior da filha – e, convenhamos, de todos os cuidadores de um familiar – entre querer tomar conta (seja por afecto ou sentido de dever) e sentir tudo aquilo como um fardo.

À saída da peça ouviam-se desabafos de quem não só viveu situações iguais, como tem uma saudável noção de que, qualquer dia, vamos ser nós naquele lugar. E a relevância d’O Pai é precisamente essa: porque nestas histórias nunca há respostas ou soluções fáceis. Porque vivemos numa sociedade que parece não saber muito bem como lidar com os idosos e parece achar mais fácil ignorá-los ou tratá-los como tolos – o que também é criticado na peça, numa cena deliciosa.

Entre as inúmeras razões pelas quais a Arte é fundamental para nos elevar enquanto seres humanos, a que tenho como mais importante é a capacidade de nos expôr a outras perspectivas. Realidades com as quais nunca teríamos contacto – ou que nem sequer nos dariamos ao trabalho de tentar descobrir ou entender – e que se tornam acessíveis através dos grandes meios artísticos, incluindo uma boa peça.

Está em cena até 12 de Março e só têm a ganhar em lá dar um saltinho.

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